O SANGUE AZUL EXISTE.
Meu sangue escorre pelo caminho sinuoso do meu nariz ao meu queixo, um trajetória torta e desajeitada que se finda em uma gota que viaja até o chão. Esse sangue, tão normal a mim, que em certos momentos — na tentativa de evitar mais gotas pelo piso — prefere retornar e viajar internamente pela minha garganta, trazendo a mim esse gosto ferroso, o gosto do sangue.
O sangue que corriqueiramente cai de mim é da mesma cor, cheiro e textura do sangue de qualquer outro, ao sangue do meu irmão, ao sangue do meu pai, ao sangue do garoto que acaba de roubar um trento no bar da esquina, ao sangue da mulher morta injustamente, ao sangue do doente que tosse sem parar ciente de seu findar.
Quem dera meu sangue fosse útil, quem dera cada gota que caí nesse piso fizesse alguma diferença ao mundo, que esses pontos vermelhos pudessem trazer liberdade, que a cada fungada que dessem sobre essa ferrugem reverberasse em suas almas e fizessem-os mudar suas ações.
Se meu sangue tivesse poder eu o faria valer a pena, entregaria tudo ao mundo se necessário, mas de nada adianta, de sangue derramado o mundo já está farto, e não muda nada, tão animalesco, tão viril, cheio de vida, mas inútil quando escorre do peito do fraco.
O sangue vermelho vai continuar caindo no piso
para que aquele dito azul continue intacto.