última certeza
penso
repenso
refaço os passos
corto mil e um laços
mas continuo aqui
parado
estacado
sinto que fiz muito pra quem merecia pouco
e pouquíssimo pra quem merecia o mundo
coloco o fone e aperto o play
repensando sobre tudo que vivi
e tudo que não tem mais replay
não guardo mágoas
mas as fagulhas dos gritos e brigas
persistem como memórias arduas
encaro uma página em branco e me pergunto
será que faz diferença um risco brando?
talvez só arrombando a porta
mas eu não vim aqui pra isso e
me corrói a alma
viver nessa sociedade
que mais parece uma fauna
no fim eu me calo
jogo os problemas pelo ralo
tal qual aquele óleo da panela
que eu sabia MUITO bem
como descartar
mas recusei a me esforçar
por que do que adianta?
o mundo tá logo aí pra acabar
tenho plena noção
de que é errado o jeito de pensar
mas é difícil ser otimista
quando tem dias que é
fogo o simples
ato de levantar
penso repenso refaço os passos
recomeço mais uma vez
a velha peça de teatro
em que a gente finge seriedade
em um mundo liderado
por uma meia dúzia de ricos palhaços
quem sabe com uma bolinha vermelha na cara
eu fosse mais real
me sentisse um pouco menos mal
por trair diariamente o meu eu original
mas sigo assim
refazendo passos
cortando laços
e abraçando os que seguem do meu lado
porque é fato
a morte é a única certeza
mas é aqui na vida mesmo
que tenho que persistir
em encontrar alguma beleza